Não se é realmente português sem se saber o que é chita e não falo daquela que tem quatro patas e corre muito, mas da outra a – supostamente nossa – como a de Alcobaça.

Digo supostamente, porque nada é realmente de ninguém, e a chita não é exceção. Antes de ser “nossa” – e apesar da de Alcobaça ser realmente uma variação reconhecidamente nacional, com as barras verticais a intervalar os motivos florais mais comuns, a chita foi da Índia, onde “nasceu”, muito antes de a conhecermos. Os Portugueses (e, de resto, os europeus começaram a importá-la a partir do séc. XV) e a usá-la principalmente em decoração e trabalhos manuais.

Deve a origem do seu nome à palavra hindi chint, do sânscrito citra – imagens manchadas, pintadas – entretanto adaptada e usada até hoje, como no português chita ou no inglês chintz, para referir o tecido estampado com motivos florais, (originalmente) num algodão de qualidade inferior, razão pela qual, de resto, se usavam os motivos coloridos, garridos e com cobertura total da trama, como forma de disfarçar possíveis imperfeições da tecelagem.

Quem me conhece, sabe que me perco por cores e estampas e estampas e cores e, quanto mais coloridas e alegres, mais me perco, adoro! E eu que já conhecia (e gostava tanto!) das nossas chitas, quando vivi em São Paulo descobri que o Brasil criou, a partir da chita que os portugueses levaram no tempo dos descobrimentos, a chita on steroids: apresento-vos o chitão!

Tal como a natureza daquele maravilhoso país, que faz brotar e florescer tudo em dobro do que estamos habituados, e movidos provavelmente também pela sua alegria contagiante e transbordante, o chitão é – para mim – a mais bonita (re)interpretação de todas as chitas, chitinhas, chintzes e afins.

Este foi um dos tecidos que atravessou o Atlântico comigo, e que ainda não tinha um destino traçado (ou talvez já tivesse, mas só agora foi desvendado). Agora, inspirada na “brasilidade” de que tenho saudades todos os dias, nas heranças e legados, nas Carmen Miranda dos nossos dias, na alegria e otimismo que devemos (e precisamos) beber a rodos nos dias que correm, o meu chitão finalmente ganhou forma!

Porque o verão ainda não acabou e porque vermos “tudo azul” às vezes depende tanto de nós mesmos, como do que nos rodeia.

It aint over ‘til it’s over